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OSCAR DAS PRAIAS

Cidade de SC transforma camarão e cascas de coco em adubo e conquista “Oscar das Praias”

Balneário Piçarras conquistou selo Bandeira Azul após cumprir diversos requisitos de programa internacional

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O município de Balneário Piçarras, em Santa Catarina, é o único do Brasil a ter conquistado o selo Bandeira Azul em 100 por cento da orla de sua praia. A certificação é conhecida como “Oscar das Praias" e faz parte de um programa internacional coordenado pela Foundation for Environmental Education (FEE), que valida praias e marinas que se destacam nos cuidados de qualidade ambiental, gestão sustentável e boas práticas de turismo. 

A cidade litorânea com pouco mais de 27 mil habitantes recebe um aumento considerável de turistas durante o verão.

Para conquistar o selo, os responsáveis por marinas, pilotos de barcos e o poder Executivo precisam cumprir 38 requisitos a cada temporada. Entre os critérios para praias, o município deve realizar ao menos cinco atividades de educação ambiental distintas para cada trecho da praia em que há o interesse em adquirir o selo. Ainda são necessárias análises sobre a qualidade da água e saneamento básico adequado.

Uma das atividades implantadas pelo município para conquista do selo Bandeira Azul foi a transformação de resíduos da pesca artesanal de camarão, cascas de coco verde e restos de alimentos das escolas municipais em adubo. A iniciativa ocorre por meio da Unidade de Compostagem de Balneário Piçarras e está inserida em critérios relacionados à educação e gestão ambiental. Com a atividade, foi possível evitar a emissão de aproximadamente 100 toneladas de dióxido de carbono equivalente.

Usina de Compostagem de Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza

O adubo gerado pela Usina de Compostagem é entregue de forma gratuita para os pescadores e moradores da cidade. Comerciantes dos quiosques na orla da praia também recebem o fertilizante. Desta maneira, a distribuição ajuda a popularizar o projeto do IMP e a conscientizar demais cidadãos sobre boas práticas ambientais. Antes da usina, os resíduos da pesca eram descartados no Rio Piçarras. A instalação da Usina de Compostagem surge no final de 2022 e início de 2023, em um projeto anterior do Meio Ambiente e da prefeitura. 

Santa Catarina é o estado que mais possui localidades contempladas pelo certificado do programa Bandeira Azul. De acordo com o Ministério do Turismo, o Brasil possui 50 praias reconhecidas pelo selo sustentável na temporada 2025/2026; 31 destinos estão no Sul.

O município de Balneário Piçarras conta com 6,7 km de extensão de orla, que é dividida em quatro trechos: Praia da Ponta do Jacques (certificada desde 2023), Praia de Piçarras (certificada desde 2018), Praia Central de Balneário Piçarras (certificada desde 2024) e a Praia da Barra do Rio Piçarras (primeira certificação para 2025/2026).

O pescador Reinaldo Winter, de 57 anos, mora em Balneário Piçarras há mais de 15. Ele e sua família integram o projeto do Instituto de Meio Ambiente (IMP) da região.

Ebenézer, barco de Reinaldo, passando pelo Rio Piçarras em direção ao mar (município de Balneário Piçarras à esquerda e município de Penha à direita). Crédito: Vitor Souza
Reinaldo lançando a rede ao mar para verificar a presença de peixes no local onde o barco está. Crédito: Vitor Souza
Reinaldo Winter, pescador de 57 anos e morador de Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza

Para ir ao mar, Reinaldo levanta de madrugada e vai até o cais, que fica a cerca de 300 metros de sua casa. O pescador mantém a rotina há anos e conta que sequer precisa ser acordado para ir trabalhar. Quando era criança, nunca havia visto o mar, até fazer uma visita ao padrinho em Balneário Camboriú e se banhar pela primeira vez.

Apaixonado pela água, ele se mudou para a casa do parente. Lá, também teve incentivo para se aproximar ainda mais da pesca: o padrinho o ajudou a comprar seu primeiro barco quando ele tinha apenas 17 anos.

Reinaldo utiliza técnicas da pesca de arrasto para a captura, como tangones e portas de arrasto. Ao levantar a rede, diversas espécies acabam presas à rede, mas o pescador prefere ficar com os camarões, lulas, alguns siris e peixes para fazer filés. 

Cais onde está localizado o barco de Reinaldo. Crédito: Vitor Souza
Reinaldo trazendo ao barco uma das redes jogadas ao mar para a captura do pescado com a cidade de Balneário Piçarras ao fundo. Crédito: Vitor Souza
Reinaldo separando o pescado que será levado para casa e o que será devolvido ao mar ou entregue às aves que seguem o barco. Crédito: Vitor Souza
Camarões e lulas capturadas por Reinaldo; espécies de crustáceos mais pescadas pelo pescador na região são o camarão-de-sete-barbas e o camarão branco. Crédito: Vitor Souza
Camarão Branco capturado por Reinaldo. Crédito: Vitor Souza

Ao se mudar para Balneário Piçarras, pôde construir sua casa e sustentar os cinco filhos que moravam com ele e a esposa, Temisse Winter. Durante boa parte da infância e adolescência dos filhos, as crianças também ajudaram. As três filhas mais velhas, Taciane, Thaili e Taiane Winter, atuavam na captura, limpeza e mecânica da embarcação. A presença das meninas em idas ao mar também serviu para quebrar paradigmas sobre o trabalho das mulheres como pescadoras.

Hoje adultas, cada uma possui sua própria vida. Os filhos mais novos, Thainá, 16, e Gustavo, 14, estão menos envolvidos com a profissão. O caçula sonha em trabalhar como eletricista enquanto a irmã pretende seguir na área de logística. Assim, em breve a tradição da família Winter na pesca pode chegar ao fim. A situação é semelhante na comunidade, poucas embarcações contam com filhos ou algum outro parente em seu quadro de pescadores.

A limpeza dos produtos é dividida entre a esposa e os dois filhos. O armazenamento do pescado e a venda acontece dentro da casa dos pescadores, por meio da divulgação da vizinhança, no famoso "boca a boca". Os resíduos do camarão então são coletados em caixas por servidores públicos e encaminhados à Usina de Compostagem. As operações na unidade ocorrem desde 2022 e são realizadas por três funcionários que atuam no local.

Gustavo, filho de Reinaldo, limpando o camarão branco. Crédito: Vitor Souza
Camarão Branco segurado por Gustavo. Crédito: Vitor Souza
Camarões enformados prontos para serem congelados. Crédito: Vitor Souza
Camarões-sete-barbas e lulas sendo colocados na mesa para a limpeza. Crédito: Vitor Souza

O biólogo do IMP de Balneário Piçarras, Miguel Ângelo Pinho, explica que o projeto surgiu após a adaptação de uma ação que visava apenas a separação dos resíduos orgânicos. De acordo com ele, a mudança iria resolver dois problemas bem conhecidos do município.

“Um deles é o descarte de cascas de coco na praia. Nas altas temporadas, esse tipo de resíduo sobrecarregava as lixeiras públicas, que não possuem capacidade para acomodar um volume tão grande, o que acabava levando frequentadores a descartarem de forma irregular: na restinga, na areia da praia e em outros locais”.

Já os transtornos envolvendo as cascas do camarão foram identificados durante entrevistas com moradores na época da implantação do projeto anterior. Em determinado momento, agentes ambientais constataram que o volume de resíduos de camarão gerados pelos pescadores artesanais era superior ao de restos de alimentos nas residências.

“Foi nesse momento que me ocorreu a ideia de que as cascas de coco verde são ricas em carbono, enquanto os resíduos de camarão são ricos em nitrogênio”. A parceria com a Colônia de Pescadores ocorre desde 2023, já a coleta de coco ocorre desde dezembro do mesmo ano.

Saco de camarão congelado pronto para ser vendido. Crédito: Vitor Souza
Lulas separadas em pote. Crédito: Vitor Souza
Camarão congelado ensacado. Crédito: Vitor Souza

O supervisor da Usina de Compostagem, Henrique Fernandes Andreoli, atua no local desde o início das operações da unidade. Antes, ele trabalhava como roçador para a prefeitura de um município vizinho. “Como eu fui o primeiro [contratado], tive aulas com agrônomos, participei das visitas dos engenheiros que vieram criar o projeto do revolvedor. Então, eu sempre estive envolvido [nas atividades da usina]”.

Ele explica que o coco verde utilizado no adubo é recolhido de contentores localizados próximos de quiosques da praia e os restos da merenda escolar são retirados das instituições. A primeira coisa a se fazer é jogar os resíduos na composteira, devido ao forte odor. Em seguida, o coco é triturado, as fibras do fruto servem como um cobertor e ajudam a inibir o cheiro da composteira.

Cocos verdes recolhidos pelos profissionais da Usina de Compostagem e a pilha de fibras do fruto após serem trituradas. Crédito: Vitor Souza
Cocos verdes recolhidos pelos profissionais da Usina de Compostagem sendo triturados. Crédito: Vitor Souza
Leira de resíduos da Usina de Compostagem de Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza
 Usina de Compostagem de Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza

Para manter a temperatura da leira – pilha de resíduos orgânicos – é preciso misturá-la, como uma massa de bolo. Para isso, a usina conta com um revolvedor, máquina que permite que o serviço seja feito de forma automática. Em seguida, ocorre a maturação – fase final da compostagem –, momento em que a temperatura da leira está estável. Após essa etapa, o material passa por uma peneira e então é ensacado e fica pronto para ser distribuído aos moradores.

Em 2024, a Unidade de Compostagem de Balneário Piçarras processou 63.622 quilos de resíduos orgânicos. Foram 29.607 kg de cascas de coco verde trituradas, 13.951 kg de resíduos dos refeitórios das escolas municipais e 20.064 kg de resíduos da pesca artesanal, entregues pela Colônia de Pescadores. Se descartado em um aterro sanitário, por exemplo, os resíduos compostados poderiam gerar uma grande quantidade de metano, um gás de efeito estufa com 28 vezes mais potencial de aquecimento global que o dióxido de carbono. No mesmo ano, foram produzidas 27,5 toneladas de fertilizante orgânico. O material foi utilizado para a manutenção de espaços públicos, distribuído para escolas municipais, pescadores locais e para a população em geral, em embalagens de um quilo. No mesmo ano, o projeto da usina conquistou um prêmio de boas práticas.

Revolvedor fazendo a mistura dos compostos na leira. Crédito: Vitor Souza
Revolvedor da usina e o triturador de cocos ao fundo. Créditos: Vitor Souza
Crânio de peixe em meio aos resíduos da compostagem. Crédito: Vitor Souza

Henrique diz que se sente realizado em participar do projeto da Usina de Compostagem, principalmente por nunca ter atuado com questões envolvendo o meio ambiente.

“E é bacana também porque o IMP valoriza nosso trabalho. Nos prêmios que recebemos eu também estava lá em Florianópolis para receber a conquista ao lado do biólogo. Eu não sabia como funcionava. Depois que eu comecei a trabalhar no Instituto, muita coisa mudou na minha vida em questão de separar o lixo. Muitas vezes eu vou na praia com a minha família e minha filha pega uma sacolinha e sai recolhendo os lixinhos da praia. Então é uma coisa que você acaba levando para a vida também”.

A pescadora Temisse, esposa de Reinaldo, também avaliou de forma positiva a iniciativa do Instituto do Meio Ambiente. Ela utiliza o adubo do projeto na horta de sua casa. “O nosso resíduo, assim como dos outros pescadores, ia todo para o rio. Porque nenhuma empresa se interessa em comprar uma caixa de resíduo”, diz. Quando fazia o descarte, ela e as filhas realizavam até duas viagens para a beira do rio.

“É legal poder falar que nosso resíduo vira adubo. Que Balneário Piçarras faz adubo com resíduo da pesca artesanal”, diz Temisse. 

Adubo após sair da peneira. Crédito: Vitor Souza
Adubo sendo ensacado após passar pela peneira. Crédito: Vitor Souza
Adubo orgânico da Usina de Compostagem de Balneário Piçarras pronto para ser distribuído à população. Crédito: Vitor Souza

Municípios vizinhos já procuraram entender como funciona a usina de compostagem de Piçarras e estudam formas de viabilizar a aplicação do formato em suas regiões, segundo Henrique.

O selo Bandeira Azul também costuma ser explorado para o turismo e, eventualmente, pode vir a ser aplicado pelo setor imobiliário, como estratégia para a venda de imóveis. Entretanto, a responsável pelo setor na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Balneário Piçarras, Camila Fernandes, explica que até o momento não houve nenhum planejamento da entidade para explorar a conquista do certificado internacional, mas que estratégias devem ser traçadas neste ano.

Lançamento de condomínio em Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza

A respeito do turismo, o turismólogo da Secretaria de Turismo de Balneário Piçarras, Eberton Siqueira, ressalta que os impactos do selo têm sido vistos desde a certificação do primeiro trecho da orla da praia. 

“Tivemos maior visibilidade na temática da sustentabilidade, principalmente pelo aumento de investimentos no setor imobiliário, podemos perceber uma relação direta entre um setor e outro”.

Conforme o profissional, com a conquista do último selo, a visibilidade da cidade aumentou principalmente em órgãos oficiais de turismo. 

O hasteamento da Bandeira Azul foi realizado no dia 12 de dezembro. Em decorrência da montagem de um palco para as festividades de Réveillon e o excesso de público no local, a bandeira chegou a ser baixada por um período, mas foi novamente levantada após os eventos. O mesmo ocorreu durante as obras de alargamento da Praia Central de Piçarras, encerradas em abril. Os trabalhos poderiam impactar alguns dos critérios necessários para a manutenção do selo.

Praia da Barra do Rio Piçarras, a última a conquistar o selo Bandeira Azul. Crédito: Vitor Souza
Uma das praias de Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza
Molhe da Praia da Barra do Rio Piçarras. Crédito: Vitor Souza
Jovem pula de molhe na Praia da Barra do Rio Piçarras. Crédito: Vitor Souza
Bandeira Azul hasteada em Balneário Piçarras. Crédito: Vitor Souza
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