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UMA DOCE APOSTA

Cozinheiro de Guabiruba larga restaurantes para vender doces de alta culinária nos semáforos de Brusque

Alessandro Merlos, de 46 anos, passou por diversos restaurantes do Brasil e chegou a ser dono de hamburgueria

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“Te contaram? Que você foi uma boa pessoa esta semana e está merecendo um docinho?”. É com esse bordão que Alessandro Merlos vende doces nos semáforos de Brusque. Aos 46 anos, o cozinheiro decidiu sair das cozinhas dos restaurantes para apostar na alta confeitaria pelas ruas da cidade. 

Em seu cardápio, há brigadeiros e entremets, um sofisticado doce da culinária francesa. Morador do bairro Lageado Baixo, em Guabiruba, ele sai todas as manhãs de casa, pega o ônibus em direção a Brusque e então segue para o cruzamento da ponte estaiada, entre as ruas Hercílio Luz e a avenida Lauro Muller. Às vezes, está na sinaleira da rua João Bauer com a Felipe Schmidt e até em outros bairros que não o Centro.

Para os pagamentos, o confeiteiro entrega, junto com os doces, um QR Code com seus dados bancários, assim, conta com o “bom coração” dos motoristas para pagarem pelos produtos.

História na cozinha

Natural de Araraquara (São Paulo), Alessandro já trabalhou em diversos restaurantes espalhados pelo Brasil. Em meados de 2008, foi para a Itália, onde também teve contato com a culinária local. Ao retornar para o Brasil foi estudar gastronomia.

“Então montei uma hamburgueria em Araraquara, mas a pandemia – da Covid-19 – me quebrou as pernas. Eu tinha alguns funcionários, consegui comprar um carrinho, uma motinha, mas a pandemia me quebrou”. 

Em seguida, mudou-se para Blumenau, onde também trabalhou em restaurantes. Logo após, voltou para o interior de São Paulo. Alessandro retomou os estudos e se especializou em comida italiana. Ele seguiu trabalhando na área, mas notou que o salário não batia com as contas de casa. 

“Hoje, infelizmente, na gastronomia, o cozinheiro é muito mal valorizado. O cozinheiro padrão não ganha três mil reais. Um chefe de cozinha tirando R$ 5 mil. A gente está em Brusque. Não fecha as contas. Um aluguel está acima de R$ 2 mil. Se você tiver filhos, se tiver pensão para pagar, está no azeite, está lascado”, ressalta.

“Nesse vai e vem, eu fui bater lá em São Luís do Maranhão. Quase morri de fome. E aí, numa situação bem difícil, minha filha falou: ‘pai, vem embora’. Respondi: ‘De que jeito, filha? Eu pago a diária da pensãozinha que eu estou e me alimento. Como eu vou embora? Não tem como eu ir’. ‘Vou pagar a passagem. Vem embora’, ela disse. Aí eu fui”, relata.

Novamente, houve a ideia de abrir uma hamburgueria, por parte da filha, mas Alessandro negou. Ele comenta que atualmente virou um tipo de “moda”. “Falei: ‘filha, não é o que eu quero. Eu vou fazer uns docinhos e vou vender na rua'. Então comecei a fazer brigadeiros em Blumenau”. Enquanto ele fazia os doces, também trabalhava em um restaurante.

Desde jovem, Alessandro já cozinhava em casa. Ele menciona que fazia isso pois era uma forma de “beliscar” alguns alimentos antes deles ficarem prontos. “Para eu ficar perto da batatinha, comecei a ajudar minha mãe no preparo. Lavar um prato, cortar uma cebola. Então eu estava mais perto da batatinha e conseguia arrancar uma sem minha mãe ver”. Foi assim que o jovem começou a pegar gosto pela culinária e, por meio dela, conseguiu o primeiro emprego.

Em sua vida, também coleciona experiência como ourives, detalhando alianças, pingentes e outras bijuterias. A semelhança entre as duas áreas está nos minuciosos detalhes do produto final. 

Mudança para Guabiruba

Ao se mudar para Guabiruba, em meados de março de 2025, decidiu que não trabalharia mais em restaurantes, mas entendeu que precisava melhorar nas vendas. “Foi quando eu enxerguei que, se eu me tornasse bom nas vendas, esse poderia se tornar o projeto de reconstrução da minha carreira”.

“Foi onde eu comecei a me dedicar a vender. Comecei a ler, a estudar e a assistir filmes, todos relacionados à venda, persuasão e conexão. E hoje eu consigo me conectar com as pessoas. 

Hoje eu consigo despertar uma curiosidade e fazer as pessoas baixarem o vidro, que é uma coisa bem difícil. Ali é onde eu consagro a minha vida”, diz Alessandro. 

O confeiteiro menciona que possui o interesse de atuar no ramo de cerimônias. Como nessa área os pedidos são feitos com um ano de antecedência, em média, ele não possui perspectiva de fechar negócios para 2026. Mas no próximo ano, há uma grande esperança, principalmente devido à chegada de um novo equipamento que irá automatizar o processo de pintura dos doces.

Construção dos doces

Alessandro cria os doces de forma manual. Entre os domingos e segundas-feiras ocorre a maior produção. Na fabricação de brigadeiros, por exemplo, o cozinheiro conta com apoio de outra pessoa para enrolá-los; na produção dos entremets ele trabalha sozinho. 

“Entre sábado à tarde e domingo, eu coloco a panela pra girar e faço entre 400 e 600 brigadeiros. Aí, na segunda, essa pessoa vem e enrola eles”. Os brigadeiros são levados para as ruas e, conforme ele, não voltam mais. “Se sobra duas ou três caixinhas eu abençoo alguém”.

Com os entremets é diferente, são produzidas várias unidades e todas são congeladas. Para levá-los às ruas, Alessandro banha os doces e os põe na embalagem. “A partir do momento em que eu o tiro da geladeira e o levo para a rua, ele tem cinco dias para ser vendido”.

Em semanas de pagamento, o cozinheiro leva aos semáforos cerca de 40 entremets e 40 brigadeiros.

A receita do doce francês é a seguinte: ganache, pedaços de bolacha, mousse de chocolate e ganache novamente. Enformado em um formato de cacau, após sair do congelador, Alessandro o mergulha em um recipiente com chocolate branco e corante lipossolúvel de cor alaranjada para que fique parecido com o fruto. Com diversos tipos de formas e recheios, os doces podem parecer maracujás, limões e até mangas.

Os detalhes são minuciosamente feitos com um pincel. A partir das próximas levas, o processo será diferente, pois agora o confeiteiro conta com uma pistola de pintura.

Nas ruas, há expectativa de convencer os motoristas a baixarem os vidros dos carros. Com o tempo, Alessandro aprendeu a ler seus clientes nos semáforos. Apenas pelo olhar, ele identifica potenciais compradores, aqueles que não têm interesse e os que apenas têm curiosidade em saber sobre os entremets.

Apesar das várias horas necessárias para produzir os doces, o confeiteiro possui um intervalo de aproximadamente 50 segundos por sinal fechado para conseguir vendê-los.

Mesmo precisando do dinheiro, o confeiteiro não usa as crianças como argumentos para influenciar os pais a comprarem seus doces. 

O curto tempo de contato com os motoristas faz com que o confeiteiro trabalhe com o método de “PIX da confiança”. Nos casos em que o pagamento não é feito, ele entende que muitos fatores podem ocorrer para isso, mas acredita na honestidade da maioria. “Agora tem gente que pega, leva pra casa e não paga mesmo. Afinal, se você pegar um doce, eu nunca vou saber que foi você que não fez o PIX”.

O cozinheiro já se enxerga como um grande empresário, apesar de ainda não ter um grande faturamento. Ele ressalta que sempre acreditou que fosse capaz de realizar todos os seus objetivos. 

“Eu nunca me vitimizei. A partir do momento que eu tenho vontade de fazer alguma coisa, não tem quem me segure”, ressalta.

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